Anorexía nervosa...Abrindo o coração!
Há muito tempo que não falo sobre a minha história pessoal,
aliás acho que há coisas que nunca revelei, que guardei para mim, porque era
tão minhas e dos meus. Coisas sobre o meu problema de adolescência, sobre essa
fase da minha vida em que deixei de acreditar.
Não sei porquê, nem sei se é por estar numa fase de mudanças
na minha vida, de assumir novos desafios, que tenho olhado muito para quem sou
e o que fiz, e me tenho lembrado muito dessa altura. Se calhar por isso é que hoje aqui, decidi abrir
o coração e partilhar coisas tão minhas.
Não me perguntem como começou por não sei. Eu nunca gostei
do meu corpo, achava-me horrível, horrível de ser magra. Lembro-me que na
escola toda a gente gozava comigo por causa disso, chamavam-me a “Olívia Palito”
e diziam-me coisas do género “Posso
palitar os dentes com as tuas pernas?!” . E eu respondia, mandava-os para aqui e
para ali , depois houve uma fase que já não ligava nenhuma, mas uma coisa era
certa, aquilo afetava-me.
Como é que uma pessoa que se acha magra depois tem anorexia?
Boa pergunta!
Eu era uma adolescente que não gostava do corpo dela, da
imagem que tinha, eu tinha vindo do Porto com a minha mãe, porque queria estar
com ela, mas detestava estar aqui. Queria de volta o meu quarto como
ele era, a minha casa, os meus avôs e os meus amigos. Era revoltada, muito
revoltada.
Depois sentia-me sozinha. O meu pai tinha partido e tinha-me
deixado aqui, e a minha mãe arranjou uma nova família. Eu tinha outra
família. Mas não me sentia parte dela.
Depois comecei a achar que tinha barriga , que estava gorda,
naquelas alturas em que chegas aos 14/15 anos e o teu começa a mudar de uma
forma inexplicável para uma cabeça daquela idade com tanta coisa complicada lá
dentro.
E pronto ,era gorda, queria a “minha terra”, queria o meu
pai, tinha uma “fome” de pai, que os meus avós, estava sozinha e não sabia quem
eu era. Confuso, eu sei, mas é real. Tudo saíu fora do meu controle. Logo eu
que era tão auto controlada e perfecionista!
Vi umas dietas numas revistas de miúdas e comecei a fazer
aquilo. Comecei a fazer uns exercícios à maluca. Quando cheguei as 16
anos já estava nos 45 kg, e já se notava que estava super magra. Mas eu
continuava a achar-me gorda entre tudo o que já tinha dito. E daqui a abolir alimentos, a comer quase nada
e passar horas sem comer e só a beber água foi fácil.
Mas ao mesmo tempo tinha uma energia incomensurável, dormia
pouco, estudava horas intermináveis, fazia exercício e ainda cheguei durante
algum tempo a trabalhar e estudar. Achei que era a super mulher, capaz de tudo!
Eu controlo tudo! E depois….Ah, a melhor parte quando consegues não comer,
estás a controlar um dos instintos mais básicos da sobrevivência da espécie
humana, e isso sim, dava-me uma sensação de vitória sobre mim mesma e sobre o
resto do mundo. Era sobrenatural, uma heroína até. Não controlas a tua vida,
mas controlas a vida humana.
Lembro-me de comer um mero iogurte de 125g magro com
vestígios de cerais ao pequeno almoço e uma fruta. Nada a ver com o que como hoje! Lembro-me de ir para escola e não comer mais
nada, almoçava quando almoçava e só lanchava quando estava com as minhas colegas,
quando depois a minha mãe ia lanchar comigo, ou quando a minha avó estava cá em
Lisboa e ia a minha casa. Jantava quando jantava quase nada quando a minha mãe
ou o meu padrasto estavam em casa, acho que comia menos que o meu irmão que devia
ter para aí 1 ou 2 anos na altura.
Havia uma voz que sussurrava aos meus ouvidos a todo o tempo :"Não podes comer mais, não podes comer nada, estás feia, estás gorda."
Aos 17 anos fui internada em risco de vida no hospital de
Santa Maria! Tinha 39kg para 1,70 m! Estão a imaginar! Não estejam é demasiado
mau!
Estive lá quase 4 meses! Entrei com o frio do Inverno e saí já
com a Primavera em flor. Não foi fácil, experiência aterradora. Salvaram -me o
corpo, mas não me salvaram a mente, nem a eu a salvei!
Saí acabei o 12º ano, entrei na faculdade, comia, mas tudo o
que eu sentia estava lá a assombrar-me e não demorou muito a voltar ao mesmo.
Cheguei a mudar -me para o Porto, mas isso não ajudou. Tive de voltar para casa.
Os meus avôs tinham-se reformado e vieram viver para Lisboa e eu não tinha
condições de estar sozinha.
34 kg. 20 anos. Deixei a faculdade, deixei tudo, deixei de
acreditar em tudo.
Houve uma altura em que queria comer alguma coisa, e
o meu corpo rejeitava, em que já me achava horrível, estranha, para além de
tudo o resto e só queria desaparecer. Depois acho que já nem sabia o que
achava. A minha vida era uma espécie de charco e nada me dizia nada. Só me
sentia perdida e sozinha. Ah e triste! Aquela força e aquele controle todo já
há muito que tinha ido.
A anorexía para mim, já era uma espécie de estilo de vida,
uma prisão de mim mesma da qual não me estava a conseguir libertar.
Como mudei? Da mesma forma como comecei, de um dia para outro.
Mudei de médica assistente no Hospital de Santa Maria, no lugar
de pessoas com idade da minha mãe que parecia saber tudo e não saber nada, e de
terapeutas aos quais não passavam a menor bola, apareceu uma médica jovem. Ao
início desconfiei, mas comecei a achá-la “fixe” porque era nova, era diferente
das outras, e comecei a achar que ia ter com uma amiga minha e não com uma “tipa”
chata com uma bata branca. Pela primeira
vez achei que podia confiar ali em alguém. Alguém de “bata branca”.
Também conheci algumas pessoas ligadas à área do
desenvolvimento pessoal, uma delas era coach, assim numa altura em que não se
ouvia falar muito de coaching em Portugal . Foi aí que comecei a ter um
perspetiva diferente da vida e conectar-me com coisas mais positivas.
Experimentei fazer algumas sessões de coaching, o que era completamente
diferente do que tinha feito ate ali. Eram perguntas, às quais eu deveria
responder e que me despertavam emoções, era diferente, porque iam ao mais fundo
de mim.
Comecei a conhecer-me melhor, comecei a perceber com tudo
isto que a vida era minha, e que o problema não estava no exterior, na família,
no mundo, em sere gorda ou magra, o problema estava na forma como eu me via e
via os outros. Percebi que em grande parte era a anorexia nervosa que me mantinha
na minha zona protegida, mas ao mesmo tempo era precisamente a anorexia que não
me deixava ser feliz e não me estava a deixar atingir os meus objetivos. Eu
estava doente. E entendi que só eu podia resolver aquela situação.
Foi nesse momento que e foquei no meu objetivo:
curar-me. Então perguntei o que podia eu
fazer para lá chegar? A quem devia pedir ajuda? O que tinha de deixar de fazer?
Aos poucos fui melhorando a forma como me aceitava, como me
via, a miha relação com a comida, e com os outros.
Se foi fácil? Não, de todo não foi. Era uma luta
mente/corpo. E quando dominas o teu corpo tens de dominar a tua mente! Tinha
sempre um foco, a vida que eu queria para mim, e que não podia ter com a anorexía!
Foi assim que ficou para trás. Hoje sou um pessoa diferente,
melhorei muito a maneira como vejo o meu corpo, o desporto ajudou-me, mas agora
de uma maneira diferente, para me manter saudável e dar calma à minha mente.
Não tenho medo de comer, não como algumas coisas porque não
quero, não fazem bem e não tem a ver com o meu estilo de vida saudável, e
algumas não como porque mais recentemente descobri que tenho algumas intolerâncias
alimentares. Mas não conto calorias, nem acho que vou ficar obesa porque sais
da linha!
Há sequelas ficas no funcionamento do teu organismo que ficam, na massa óssea, no teu metabolismo,
e mesmo no cérebro, este também é constituído por células, que são composta por
aminoácidos e glicose que durante muito tempo eu quase não consumia. A privação
alimentar tem consequências. Ficou durante algum tempo a insegurança, um comportamento
emocionalmente mais instável, a mania da perfeição,que não foram os mais
benéficos para mim em outros desafios que passei na minha vida com o decorrer
do tempo.
Mas uma coisa eu apreendi com o tempo: as dificuldades são sempre transitórias, tudo
depende da forma como as vemos, o que aprendemos com elas e o que fazemos para
ultrapassar. Podemos ficar por ali ou crescer com elas.
Aprendi que a minha vida depende de mim, que
o nosso corpo vai-nos acompanhar para sempre e deve ser bem tratado e cuidado,
para ser saudável e viveres bem e muito tempo. Aprendi a confiar em mim e a
acreditar em mim, no quanto eu sou capaz de chegar onde quero, focando-me
nisso, aprendi a não a cuidar de mim e não me maltratar, nem deixar que ninguém
o faça.
Aprendi que não há vidas perfeitas, nem famílias perfeitas. As pessoas
fazem o melhor que podem e que sabem nas devidas alturas, e muita vezes estão
tão “à nora” como tu, e também elas têm as suas histórias, os seus fantasmas e
não é fácil seres mãe, pai, avó, avó, tio, primo, amigo de alguém e quereres
dar o melhor exemplo quando também tens medos e coisas para resolver e nem
sabes muito bem como ajudar.
Houve, depois da anorexía, alturas menos boas na minha vida,
por outras razões, ainda tenho desafios na minha vida, e hei-de ter, como toda
a gente, isso faz parte da vida e do crescimento humano, e nessas alturas,
quando penso “Será que sou capaz? Será que estarei à altura de …?”, tenho
sempre presente que um dia alguém me disse, que tinha anorexia crónica e ia
ficar assim para sempre. E eu decidi que não ia ficar . E assim foi. Não voltei
mais e já passaram cerca de 15 anos!! Porque esta é a minha vida, e eu decido
como a quero viver, e eu quero vivê-la bem, de forma saudável.
Se achares que a minha história pode ajudar alguém que
conheças, sente-te à vontade de partilhar. Não há que ter vergonhas nem medos.
Há que intervir em situações graves como estas enquanto é tempo. A anorexía é
grave, é mortal e tem muitas consequências na vida das pessoas. Eu consegui
ultrapassar. Tu também consegues, é só queres muito e acreditares.
Lembra-te sempre: nem é o céu é o limite! Podes muito mais
que imaginas.


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